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A falsa oposição entre cultura e técnica

two fish © Rose Borschovski aka Saskia Boddeke

A forte tendência para separar a tecnologia do mundo dos homens, como se esta fosse um protagonista autónomo — separado da sociedade e da cultura — parece não fazer sentido senão numa proposta que ignore, na realidade técnica, a sua componente humana. Poderá este misoneísmo representar um verdadeiro ódio pela novidade? Ora, nesta questão reside grande parte da resposta para o que hoje chamamos de alienação contemporânea.

Na opinião de Gilbert Simondon[1], (…) a mais forte causa de alienação do mundo contemporâneo reside nesse desconhecimento da máquina, que não é uma alienação causada pela máquina, mas pelo não-conhecimento da sua natureza e da sua essência […]” (Simondon, 2008: 169). Interessante será estabelecer um paralelismo entre o pensamento de Simondon e o de Pierre Lévy[2]: Mesmo supondo que existem efectivamente três entidades: técnica, cultura e sociedade, mais do que acentuar o impacto das tecnologias poderíamos do mesmo modo afirmar que as tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura” (Lévy, 2000: 23).

Esta esclarecida análise, de ambos os pensadores, pretende (re)lembrar que existe uma grande dose de indeterminação naquilo que são as relações humanas mediadas pelas novas ferramentas da comunicação, tal como, por outro lado, existe um tecnicismo que não passa de uma idolatria da máquina, uma aspiração tecnocrata ao poder incondicional” (Simondon, 2008: 170).

Neste contexto, vêem-se as novas ferramentas de comunicação em rede como uma teia que ameaça o homem, provida de alma e de uma existência separada, capaz de produzir os mais variados e nocivos sentimentos, lançando-o para um abismo de submissão permanente e irreversível que vai destruindo as suas relações sociais e encaminhando-o para o fugaz e para o difuso, cenário que se apresenta castrador da mais elementar liberdade. Esse mesmo homem que, ainda segundo Simondon, é possuidor de uma cultura que não lhe permitiria falar de objetos ou personagens pintadas sobre uma tela como verdadeiras realidades, possuindo uma interioridade, uma vontade boa ou má (Simondon, 2008). Vemos nesta abordagem da relação homem/técnica uma flagrante ambivalência: objetos técnicos como meros utensílios versus objetos animados por intenções hostis que representam um perigo permanente de agressão, de insurreição” (Simondon, 2008: 170).

As redes de informação — dependentes de um elevado grau de tecnologia –, onde o fluxo binário circula por infraestruturas mediadas por máquinas e suportado em diversos conjuntos de linguagem codificada, fundam-se, em certa medida, numa alargada margem de indeterminação. Aí, o homem não pode fugir ao seu papel de organizador permanente, como se de um maestro se tratasse, condicionando o fluxo de dados, quer pela sua natureza quer pela sua utilização:

As relações verdadeiras não se tecem portanto entre a tecnologia (que seria da ordem da causa) e a cultura (que sofreria os efeitos), mas entre uma multidão de protagonistas humanos que inventam, produzem, utilizam e interpretam técnicas de forma diversa (Lévy, 2000: 23).

Este grau de indeterminação humano que subjaz à utilização das máquinas, da tecnologia e, por familiaridade, das ferramentas de comunicação em rede, será a chave para a sua correta — ou não — utilização.

Notas de Rodapé

[1] Gilbert Simondon (1924-1989) foi filósofo e professor da Universidade de Paris-Sorbonne e publicou, entre outros: Du monde d’existence des objets techniques (Paris: Aubier, 1958); L’individu et sa genèse physico-biologique (Paris: PUF, 1964); e L’individuation psychique et collective(Paris: Aubier, 1989).

[2] Pierre Lévy (Tunísia, 1956) é um filósofo da informação que se ocupa do estudo das interacções entre Internet e sociedade (Cf. Wikipédia [em linha]. Acedido em 9 de Maio de 2010 em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Lévy).

Referências

Lévy, P. (2000). Cibercultura. Lisboa: Instituto Piaget. Simondon, G. (2008). Cultura e Técnica. Revista NADA, 11, 168-175.

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