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a rússia é eternamente fria

a rússia é eternamente fria

Comecei por me interessar a sério por literatura muito tarde, tarde mesmo, e não sei bem qual o motivo que me levou a tão tarde me interessar por ela. A ironia só terá surgido em mim após ter lido e relido Enrique Vila-Matas, e esse ter sido o motivo pelo qual eu tenha optado por me dedicar às letras quase na idade perfeita para o suicídio. Com muita pena minha, foi só depois de ter visitado Paris pela primeira vez. Se fosse hoje, se eu hoje lá estivesse, visitaria demoradamente as ruas por onde Vila-Matas, Hemingway e tantos outros, passearam a sua boémia, felicidade ou tristeza. Mesmo assim, pude admirar a Shakespeare & Company, local de grande importância para Hem em Paris é uma festa”, ou o Cafe de Flore de Paris nunca se acaba”, obra onde Vila-Matas retrata o pouco tempo que esgotou em Paris, onde vivia nas águas-furtada alugadas a Margerite Duras. É certo que a leitura de Paris é uma festa” e de Paris nunca se acaba” foi decisiva para que me interessasse a sério por literatura, embora nunca pudesse supor que esse interesse por literatura me levasse a ter vontade, eu próprio, de me aventurar nas artes da escrita. Por esses dias era eu um tímido principiante e pensava que devia ter lido muito mais antes de me atrever a escrever algo. Até então, tinha lido algo de Kafka, Dostoiévski, Nabokov e Gogol. Tinha uma forte atração pela cultura russa, não sei bem explicar porquê, que vinha dos tempos mais remotos que alguma vez esta minha vida tinha recuperado na memória. Lembro-me que, nessa altura, Andrei Rubliev, de Andrei Tarkosvky, era o filme que eu via vezes sem fim, ora por não entender determinada passagem, ora por não ter percebido bem os diálogos em russo. Estando eu bem dentro do reticulado da trama russa, deitava-me sobre os diários de Nijinski e detestava o sol, talvez por pensar que a Rússia era eternamente fria.

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