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Cibercidades: um novo espaço público?

cibercidades

Harold Proshansky, psicólogo ambiental norte-americano da Universidade de Nova Iorque, identifica o termo urban-related-identity como a identidade relativa à cidade que todos os indivíduos possuem desde a infância: os sentimentos de pertença territorial de tipo orgânico. Contudo, a influência produzida sobre o mesmo indivíduo pelos sistemas de comunicação de massas configura uma ação de natureza induzida que é catalizadora de novas referências culturais. Estas alterações foram sendo incorporadas nas rotinas sociais, cognitivas, culturais, políticas e económicas da vida dos cidadãos e das cidades.

É este período intermédio, que medeia a criação de sentimentos de pertença territorial de tipo orgânico e os de natureza induzida, que configura uma dimensão histórica não negligenciável. Assim, a cidade é um conjunto de símbolos estratificados no curso dessa mesma história, que se define nas relações de duplo sentido: o simbolismo urbano condiciona a atividade social e a interação de heterogeneidades contribui para a sua modificação (Fortuna & Peixoto, 2002). A este processo não é alheia a crescente mundialização da cultura, portadora de tensões entre o local e o global, que põe a nu a relação da localidade — elemento fundamental da cultura como dimensão da vida quotidiana — com uma nova visão global e cosmopolita.

Existe um sentimento, consensual, que emerge de todas as revoluções tecnológicas operadas na última década: o sentimento de inovação. Esta relação causa/efeito, despoletada pelo enorme melting pot em que se transformou o mundo, deverá consolidar-se no espaço público, ou pelo menos deseja-se que assim seja. Contudo, o espaço público pós-moderno parece dar sinais claros de uma fragmentação do campo social. Hoje, as ruas e praças são mais canais de comunicação do que espaço de convívio. A emergência dos novos instrumentos de comunicação quebrou o nexo tradicional da sua relação. Um outro polo de problemática advém do poder da economia e das organizações económicas que, no sistema capitalista globalizado, desligam-se de referências a localidades específicas. Dá-se, deste modo, a substituição de um espaço de lugares por um espaço de fluxos. Questiona-se então se a inovação esperada é uma força capaz de integrar, requalificar e unir os cidadãos em torno de um projeto comum de sociedade moderna.

A questão levantada pelo tecido difuso em que se tornou a sociedade contemporânea abrigará mais cépticos do que crentes:

À excepção de uma elite reduzida de globopolitanos (meio seres humanos, meios fluxos), as pessoas em todo o mundo ressentem-se da perda do controlo sobre as suas próprias vidas, o seu meio, os seus empregos, as suas economias, os seus governos, os seus países, e, em última análise, sobre o destino do planeta (Castells, 2007: 86).

A inovação postulada pelo progresso tecnológico, de caráter unificador, vê-se substituída pela moda, a nova arma urbana que configura igualmente novas formas de sociabilidade e identificação. São agora as tribos urbanas pós-modernas quem reconfigura o espaço público, vagueando unidas por impulsos emotivos temporais. Elas unem e excluem, agregam e contrapõem. Temos agora uma (…) sociedade reestruturada de alto a baixo pela sedução do efémero, pela própria lógica da moda” (Lipovestky, 1989b: 19). O vínculo social da solidariedade mecânica que Durkheim conferiria às sociedades pré-modernas, e que auto-regulava os comportamentos individuais, encontra agora respostas nas numerosas redes de relações (Lipovestky, 1989a). Deveremos tentar recuperar, incondicionalmente, as dimensões pós-modernas que representam um certo revisitar do período pré-moderno, tentar retornar às identidades e à solidariedade mecânica (Eco, 1986). Poderão as cibercidades, como plêiade de redes de relações, despertar uma emergência de novos valores, um sentimento de multi-pertença? Daniel Innerarity coloca esta questão de uma forma esclarecedora:

O problema que hoje enfrentamos consiste em como pensar a cidade quando temos redes em vez de vizinhança […] quando há já muito tempo o debate público se efectua num espaço virtual, quando as ruas e as praças deixaram de ser os principais lugares de encontro e encenação. A questão consiste em saber se o espaço público , como espaço de experiência humana intersubjectiva, essencial à democracia, necessita de um tipo de espaço físico segundo o modelo grego, medieval, renascentista, burguês, ou se essa antiga relação entre civilização e urbanidade se pode realizar fora dos espaços da cidade clássica europeia (Innerarity, 2010: 136)

A cibercidade, para cumprir a sua função de pilar democrático, deve ser uma obra de equipas multidisciplinares constituídas por técnicos e humanistas (Lévy, 2000). Esta preocupação antropológica, que coloca em pé de igualdade Humano e Andróide, é essencial para a desmistificação do sentimento crescente da vitória da artificialidade sobre a natureza, questão, aliás, que remonta à fundação da cidade ideal e utópica — como na idealizada República de Platão — e que, inevitavelmente, se associa à dinâmica complexa das diversas redes tecnosociais (Castells, 2000). As cibercidades podem ser vistas como utopia — ou u-cronia pois o lugar (u-topos) está fora do tempo (u-cronos) –, mas também como distopias — nos casos de 1984, Metrópolis, Blade Runner, Matrix –, o que reforça a ambivalência de um mundo cada vez mais tecnológico e a tentativa de superar os excessos de uma tecnocracia cada vez mais artificializante.

O nascimento da cibercidade é profundamente concomitante com a convergência entre as novas tecnologias digitais de comunicação e informação e a estrutura urbana clássica: dá-se, desta forma, o aparecimento de uma segunda ordem artificial”. Nesta nova ordem cabem as novas redes telemáticas e as tecnologias que delas derivam, como a internet, as redes sem fios, os sistemas de comunicação móveis, e outras possibilidades cibernéticas que alteram profundamente a dinâmica social. Contudo, estas subsistem na consistência material da estrutura urbana. Partilham o espaço com as redes de transporte, saneamento, energia e comunicação convencional, recebendo um estatuto híbrido que junta o físico e o imaginário (Westwood & Williams, 1997). Zygmunt Bauman designará esta nova ordem, chamando-lhe a modernidade líquida” (Bauman, 2000).

Vimos já que as cibercidades são espaços híbridos. Pensamos ser pertinente, nesta altura, levantar a questão da substituição, ou não, do espaço público de lugar pelo espaço público de fluxo. Para dar resposta a esta questão, propomos que se analise, na atual sociedade, se a identidade cultural se desvia de uma base local para uma base difusa e global. Ainda que a recorrência a estereótipos para caracterizar os símbolos urbanos de uma comunidade possa fazer transparecer a cada vez mais frequente inexistência de manifestações homogéneas de uma identidade cultural, parece-nos existir uma partilha de experiência histórica dada no território físico. Sendo certo que, cada vez mais, a memória orgânica é substituída pela memória cognitiva — desde a escrita até às novas tecnologias –, na hora de apelar à identidade de um povo são os monumentos históricos edificados os que falam mais alto.

Podemos então pensar — ou desejar — que nas cibercidades os espaços possam ser complementares, atribuindo-se ao espaço físico a forma mais usual de existência de uma sociedade. Para o debate em curso, gostaríamos ainda de acrescentar a significativa influência da utilização dos dispositivos eletrónicos na promoção de manifestações no espaço físico. Casos de manifestações políticas mobilizadas através da rede, encontros reais entre cidadãos fomentados pelas salas de chat ou comunidades virtuais, compras online que despoletam fluxos de mercadorias que circulam pelas redes viária, ferroviária, aérea, são sinais mais do que claros da existência de sinergias que se estabelecem entre espaço virtual e espaço de lugar. Devemos tirar partido de uma nova estrutura rizomática que permita a horizontalidade e o fluxo livre de informação, o que faz da cibercidade uma cidade contemporânea, dotada de uma potente gama de redes de comunicação, que não prescinde dos grandes centros como polos irradiadores das inovações e concentradores de capital e trabalho. Essas redes têm incentivado o crescimento de comunidades ligadas por um sentir cívico, combatendo o isolamento e adicionando uma nova dimensão ao espaço público (Lemos, 2000).

Para atingirmos os desígnios de uma sociedade verdadeiramente integradora e instigadora de uma participação ativa e democrática, deve esta nova relação ser entendida fora de um âmbito que recorra a um determinismo tecnológico e à dicotomia utopia/distopia. Este esforço deverá ser levado a cabo sem perder a noção das questões urgentes que esta nova realidade levanta. Por outras palavras, há questões a montante que devem ser acauteladas para que tal objetivo seja minimamente alcançado, ganhando capital importância a questão de como fazer da interrelação de espaços uma ferramenta de redemocratização, de aquecimento do espaço público, de melhoria da cidadania e da vida social como um todo. A perspetiva tecnocrática não deverá sobrelevar às questões de índole cultural, económica e política da comunidade, caso contrário configuraria um quadro de exclusão digital (Lemos, 2000). Em simultâneo, deverão ser acautelados aspetos relacionados com relações assimétricas de poder, quer pela via económica, quer pela via do capital intelectual.

Nas sociedades industriais, o grau de inclusão era aferido pela posse de recursos materiais. Na sociedade da informação, são os recursos intelectuais quem fala mais alto neste domínio. Aqui levanta-se uma das questões anteriormente subentendida: a dificuldade levantada pelas desigualdades educativas dos cidadãos. Caberá ao poder político agir de forma a impulsionar iniciativas no sentido de alargar as tecnologias a toda a população. Contudo, quando se trata de questões de acesso à aldeia global da informação”, duas dimensões devem ser equacionadas. Por um lado, a agenda do acesso, ligada às condições económicas das pessoas. Por outro, o código do acesso, que requer um capital cultural mediador da negociação de significado. À luz deste novo quadro problemático, a democratização do acesso à nova sociedade do conhecimento não prescinde de (…) um passaporte económico, cultural e discursivo que, a determinado nível, torna mentira a erradicação de fronteiras na noção de aldeia global” (Gounari, 2009: 25).

Emerge, das questões atrás levantadas, uma condição essencial para o sucesso das tecnologias de informação e comunicação: a convergência dos objetivos de acesso às ferramentas e de acesso ao código (Gounari, 2009). Eis que reside neste ponto a questão fulcral e óbice de uma profunda e autêntica sociedade reivindicativa e participativa. Se não forem resolvidas estas questões a montante, dificilmente evitaremos a gentrificação de um novo espaço público, construído a partir da soma de fluxos e de lugares:

Embora uma minoria da população mundial se esteja a mudar para uma sociedade virtual, com todos os benefícios que desta se esperam, o resto da humanidade permanece num mundo de escassez material. Ao mesmo tempo que quantidades cada vez maiores de actividade comercial e cultural estão a mudar para a internet, a distância entre os ligados e os não ligados talvez esteja a criar um novo proletariado da informação global (Trend cit. por Gounari, 2009: 21)

Importará, para finalizar, salientar a grande dose de utopia que preside à pretensão da erradicação das barreiras económicas e sociais que separam cidadãos, povos e nações: As sociedades actuais perderam aquela inocente homogeneidade de que se haviam revestido noutras épocas ignorando injustamente, por vezes, as diferenças que continham” (Innerarity, 2010: 166). Queremos com isto dizer, e a propósito do tema tratado, que não se hipotecarão as vantagens proporcionadas pelas novas formas de comunicação globalizadas a troco de um idealismo inatingível. Pelo contrário, será através dessas mesmas formas de comunicação que se procurará atenuar as diferenças, num processo tanto quanto possível abrangente, horizontal e despertador de uma nova consciência social.

BIBLIOGRAFIA

Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Oxford: Blackwell Publishing
Ltd. Castells, M. (2000). A questão urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Castells, M. (2007). A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, Volume II: O Poder da Identidade (2a ed.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Eco, U. (1986). Viagem na irrealidade quotidiana (3a ed.). Lisboa: Difel.
Fortuna, C. & Peixoto, P. (2002). A recriação e reprodução de representações no processo de transformação das paisagens urbanas de algumas cidades portuguesas. In C. Fortuna & A. Silva, Projecto e circunstância. Culturas Urbanas em Portugal. Porto: Edições Afrontamento.
Gounari, P. (2009). A Democracia na Nova Era Tecnológica. Mangualde: Edições Pedago.
Innerarity, D. (2010). O Novo Espaço Público. Lisboa: Teorema.
Lemos, A. (2000). Cibercidades. In A. Lemos & M. Palacios, Janelas do Ciberespaço. Porto Alegre: Sulina.
Lévy, P. (2000). A inteligência colectiva: por uma antropologia do ciberespaço (3a ed.). São Paulo: Edições Loyola.
Lipovetsky, G. (1989a). A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água.
Lipovetsky, G. (1989b). O Império do Efémero. A Moda e o seu Destino nas Sociedades Modernas. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
Westwood, S. & Williams, J. (1997). Imagining Cities. Scripts, signs, memory. London: Routledge

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