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Essência e Aparato

Essência e Aparato

O olhar para uma imagem” não se esgota na mera contemplação. Toda e qualquer imagem nos remete para a interação contínua que se produz entre mundo interior e mundo exterior, entre palavras e perceções, entre o vazio e o estímulo de uma lembrança. A memória diminui a vertigem do olhar recente, procura entender de onde vêm aparência e experiência e cria uma fronteira frágil entre real e mental. Deve pois o autor agir conscientemente em relação ao seu papel e à mensagem que pretende transmitir, o que significa fazer arte — e fotografia — como ato muito para além do estético.

Arte — e fotografia — é maneira como se pensa e se age. Entre a atitude estética — meramente visual — e a sociológica — como forma de aceder à verdade da experiência, onde questões formais são secundárias -, há um interstício que, como refere Victor Burgin em The Camera: Essence and Apparatus, apela para a dimensão política dos prazeres visuais e para a construção complexa da verdade fotográfica”.

Esta abordagem, inevitavelmente, deverá superar a simples experiência estética: o artista fotógrafo não deve, pelo menos não apenas, produzir imagens fortes”, não deve ser um fotógrafo — ou suposto fotógrafo — que se foca num trabalho que diz respeito à imagem como sujeito da prática artística. Para criar uma experiência abrangente, a imagem deve tornar-se processo e pesquisa. Cada imagem deve conter um evento em si, um poder que não termina na única experiência visual, mas que contribui para transformar a nossa experiência mental da maneira mais virtuosa possível.

A fotografia tem uma responsabilidade ainda maior no mundo contemporâneo, pois ela é veículo de sentido dos mais complexos, nos quais a realidade, a ideia e a representação coexistem e colidem. Sem o olhar certo, o imenso arquivo do imaginário permanece em silêncio, como potencial inexplorado. Então, talvez o estímulo esteja em encontrar esse olhar fantasma, com método, atenção e disciplina, através de um olhar que habite as imagens e ajude a conhecê-las. Tudo isto sem que se prescinda de uma essencial partilha de responsabilidades entre autores e espectadores.

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