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viagem ao interior do nada

viagem ao interior do nada

De quando em vez questiono-me sobre a minha própria existência. O que sou. Quem sou. Como cheguei até aqui e porque gosto eu de Paul Klee, Enrique Vila-Matas ou Misha Mengelberg. Serei eu um escritor do NÃO? Como em Bartleby e Co., de Vila-Matas, penso que terei sido em tempos um escritor desses. A minha obra não existe, é feita de fragmentos que não existem. Uns tem a cor dos quadros de Chagall. Outros, parecem partes simétricas que pertencem a metades de outras metades de desenhos do Escher. Eu não produzo nada de que me possa orgulhar. Serei também eu um Robert Walser em potência? Destinado a morrer algures num hospício neste mundo cada vez mais global? Talvez um hospício virtual, onde possamos carregar num link de uma página internet, escolhermos o lugar onde viver o resto dos nossos dias et voilá. Se ao menos pudessemos levar uma boa dose de sonhos connosco, caberiam nomes como Klee, Escher, Chagall, Metheny, Walser, Vila-Matas, Borges, Barth, Pynchon, Auster, Mehldau, Miles, Monk, Foster Wallace, Schulz, Cadmus, Eggers, Salinger, Lourenço, Camus, Kierkeegard……

Se ao menos um dia eu tivesse tentado escrever, podia hoje orgulhar-me de ser um escritor do nada, um artista sem obra criada. Se ao menos eu pudesse respirar o ar de Paris, na esplanada do Flore, contentar-me-ia em esperar pelo dia em que, na Net, escolherei o link que me levará ao completo eclipse.

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